RETRATOS SANTOMENSES

Exposição Virtual

Emiliano Dantas (CRIA-ISCTE)
fotografias 

Joana D`
arc Lima  (UNILAB)
Curadoria 

A exposição intitulada Retratos Santomenses, de autoria do pesquisador, Antropólogo Visual e Fotógrafo, Emiliano Dantas, revela, por meio de imagens fotográficas, parte de um olhar estrangeiro para o cotidiano  e as práticas de vida de mulheres, homens, jovens e crianças em São Tomé, África, em 2019. Esses registros fotográficos foram feitos na ocasião de sua estadia no país por aproximadamente três meses em função de seu trabalho de pesquisa que resultou em uma tese de doutoramento em antropologia, em diversos ensaios fotográficos - que podem der vistos no site do artista -, além de um conjunto de desenhos aquarelados. A experiência de criação e uso da fotografia por pesquisadores e pesquisadoras no campo das ciências humanas e sociais, não é uma novidade entre nós, muito menos quando se trata de produções fotográficas realizadas por meio desse `olhar estrangeiro`, nesse sentido podemos citar diversos pesquisadores e pesquisadoras que no escopo conceitual de suas investigações produziram um arquivo de imagens fotográficas importantíssimas para suas pesquisas e também para demais trabalhos, cito Pierre Verger, Claudia Andujar e Paulo Guran , entre outras e outros.

Com efeito, o retratado olha o pesquisador e o registro fotográfico narra esse olhar, esses encontros e suas ressonância. Quem olha para quem? Penso que Emiliano Dantas produz uma diferença nos usos e nas práticas da fotografia, não se restringe apenas a um olhar estrangeiro para o outro/outra, o artista afirma como a fotografia produz relações, interações e afetos. Em seu poste no instagram, comenta: Retratos Santomenses: Porque fotografias são encontros e reencontros neste mundo. Porque fotografia me une a Sara, a dona Laurinda, a @mariojdssantos e tanta gente que delicadamente me permite fotografar. Porque fotografia dá saudades de @kindialima e dos tempos que estivemos juntos. As imagens produzidas pelo pesquisador não são registros que entram para sua tese como prova histórica de um real vivido e ou construído e analisado por ele, nem tão pouco como fonte de observação que tende a dizer algo com base nas questões colocadas pelo pesquisador. Essas imagens, entre outras, são parte constituinte de sua tese, ou seja, são imagens que potencializam uma experiência fenomenológica de narrar o mundo.

Dentro do conjunto vasto de imagens agrupadas e intituladas como Retratos Santomenses em seu arquivo visual, nós selecionamos os retratos que borram as fronteiras visuais entre a linguagem fotográfica e a pictórica, nesse sentido há nessa exposição um conjunto de imagens (fotografia) que apresentam paletas de cor, ora desviando para o verde, ora para o lilás e ora para o vermelho. Importante olhar essas imagens com  olhar curioso para perceber as camadas pictóricas presentes. Em alguns casos é flagrante pontos cromáticos arrojados e que sobressaem aos olhos produzidos simplesmente pelo olhar do fotógrafo. Por vezes são essas introduzidas manualmente pelo artista, por meio da inserção de camadas de matérias exterior à fotografia e sobrepostas à imagem, e, portanto são dados  e pistas conceituais trazidas à superfície da fotografia para que nós possamos conversar sobre. E, de outra maneira, há  situações cromáticas outras, criadas por meio da manipulação no ato da sua impressão. A fotografia desliza para o campo  hibrido em trânsito para a pintura: isso é bastante interessante na pesquisa poética e estética desse artista.

Também incorporamos a essa mostra algumas imagens que narram o espaço social, por entendermos que essas figuram como retratos, nessa mostra. Assim, buscamos destacar essas fotografias como imagens/balizas, nesse sentido essas imagens rasgam a construção narrativa dessa exposição, reposicionando nosso olhar. Também foram selecionadas fotografias que possuem a força narrativa de dizer sobre  o conceito de Roça - noção essa concebida durante a investigação que resultou no doutorado do pesquisador, Antropólogo Visual e Fotógrafo, Emiliano Dantas.

Joana D` Arc Lima

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Sobre o retrato

 

Fotografar é encontrar-se, é movimento no espaço, é passar e se transformar ao ser transformado. Fotografia, no grego, é uma palavra formada por photo, que significa luz, e graphein, sufixo que pode ser entendido por desenhar, marcar ou registar. Para marcar a luz na câmera, é necessário perceber o que ela toca. Antes de fotografar, é preciso sentir a luz, observar, vagar pelos caminhos à procura dos encontros, daquilo que nos afeta. Então, para fotografar, é preciso se mover no mundo, deixá-lo entrar dentro de nós, para depois, com a luz, rescrever, redesenhar e remarcar o mundo com e pelas imagens — fotografar é um duplo, pois somos afetados pelas imagens que existem nos ambientes e refletem luz e, com as imagens, é possível reafectar a vida social.

            Quando fotografo, faço com as pessoas, partilhando momentos, construindo amizades, escutando de forma comprometida o que me é dito. Cada palavra lançada, gesto no espaço e sensação aconteciam em conjunto, no coletivo; tudo ia se misturando em mim, em minhas partes, no meu pensamento, no meu ponto de vista. Era como andar na floresta, em que os cipós vão emaranhando nosso corpo a cada passo, um momento de consciência, pois nota-se que se pensa com o corpo. E, pela consciência, o/a fotógrafo/a entende que se move nos emaranhados, habitando com todas as espécies de vida, por entre elas, entrelaçando-se ao meio.

            A imagens que fiz em São Tomé começaram por diálogos, com palavras, com sorrisos, com olhares, geralmente antecedendo o pedido; logo depois, uso a câmera fotográfica como meu caderno de campo, um dispositivo que armazena traços, linhas, cores, formas, texturas e outros mais. Por fim, agradeço, troco contantos com as pessoas e sigo meu caminho. Depois de armazenar as informações na câmera, vou para casa, pensar nos momentos, repensar em como as coisas aconteceram e como a minha memória guardou os encontros. A minha memória é como cipó que agarra, prende, solta e emaranha, causando confusão, mas cada esforço que faço para lembrar serve para aprender a ter consciência do vivido no presente — sigo nas memórias como vagalume no escuro, movo-me no espaço porque, nele, meu passado me permite ser presente.

            A seguir, abro a câmera, retiro as impressões que ela guardou usando o programa que foi colocado nela. Sobre a câmera, imagino que algum(a) engenheiro/a criou um dispositivo com a sua visão de mundo, uma forma de reter imagens por sensores, filmes e outros. Eu nunca gosto das marcas deixadas pelos programas das/dos engenheiras/os das grandes empresas de equipamentos, por isso acesso minha memória para redesenhar meus encontros.

            Desenhar com a luz, com pincéis, com computadores, com impressoras, com cera, café, terra, ou qualquer outra coisa. O processo de impressão é fiel à experiência do sentir, do ver e do escutar, o desenho rescreve o que já existia, o desenho marca, dá vida à imagem, recoloca-a no mundo.

            A imagem é risoma, que emaranha aqueles que nela se deixam afetar, é rizoma no mundo da criatividade, da possibilidade de partilhar e construir um ponto de vista em conjunto, no mundo e com o mundo.

Agradeço neste momento a cada pessoa que cruzou comigo e permitiu o encontro, permitiu que viesse uma imagem no mundo, que se ramifica, vira cipó e permite que o conhecimento seja experienciado no movimento de recriar e refazer os lugares, os sorrisos, a vida e os olhares.

Emiliano Dantas

 

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